quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jump Rope

Minha banda preferida do mês é Blue October, da mesma forma que mês passado era The Pierces.
O que a música faz na minha vi9da tem uma peculiaridade muito semelhante a dos livros. Os livros me ensinam coisas que posso aplicar na minha vida, e a música me mostra as coisas que vivi. De uma forma única.
Estava conversando com Gislene (amiga, irmã, anjo da guarda, a pessoa que mais me irrita no mundo, ainda não sei defini-la, e acho que nunca saberei), e, ouvindo Blue October ela comentou o que o dia ontem foi pra gente. E, como acontece com muita freqüência com nós duas, sentimos a mesma coisa com relação ao dia que vivemos.
Foi como nos velhos tempos, sentadas em uma escada falando de coisas absurdamente insignificantes, tanto que nem me lembro do que falávamos, e depois disso, uma reunião com nossos amigos, antigos e novos amigos, um  monte deles, como costumava ser quando nos só achávamos que éramos infelizes.
E ontem definitivamente foi um dia em que eu me lembrei do meu passado com uma vontade gostosa de chorar que sinto até agora, aquele choro que é gostoso de sentir, choro de saudade de coisa boa que só eu vivi. Ontem eu fiquei aqui no trabalhando falando com as pessoas da minha infância sobre banhos de bacia, de nadar no tanque de lavar roupa e das coisas de mato que eu comia, da planta que fechava quando eu encostava nela, das bolinhas pretas que a gente chupava e chamava de "cu de pinto" porque a boca da gente ficava preta.E enquanto eu ia pra casa ontem achei essas bolinhas no meio da rua. Eu quis pegar uma muda pra plantar em casa, na esperança de que eu pudesse resgatar um pouquinho do meu passado, mas ai eu percebi que felicidade a gente reconstrói a cada dia que passa, não da pra trazer do passado.
Mas eu preciso afirmar que ainda assim foi bom viver o dia de ontem da forma como vivi.Lembrar das coisas do meu passado me fez perceber que, por mais difícil que tenha sido a vida que eu levei, durante minha infância, existiram esses momentos. E tudo o que eu precisava fazer pra que meu dia fosse bom, era ir pra casa em um dia de chuva e fazer barquinhos de papel pra colocar enxurrada abaixo, e, naquele barquinho, todos os meus problemas e minhas dúvidas iam embora. E depois, ah!, era só felicidade.
Era só sair correndo pela enxurrada e depois agüentar minha mãe e as varadas de acerola, mas eu preciso dizer que, nesses dias, nem as varadas doíam.
Sabe, quando eu me lembro desses momentos, vejo que as coisas podem ser bem mais simples. E percebo que posso atestar com minhas próprias experiências que a vida é que nem pular corda. Up, down, up, down,up, down, up, down.




terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Nova Versão

Queria que houvesse mais versões de nós mesmos para download. Assim quando nos cansássemos de nós mesmo, seria só um clique, e pronto, reinvenção.
Queria que as nossas versões digitais, as que usamos em nossas vidas virtuais, fossem transferíveis pra chips que pudéssemos inserir em nossos consoles corporais e, assim, seriamos definitivamente um pra cada ocasião.
Seria muito, muito mais fácil se fossemos editáveis como nosso “quem sou eu” que colocamos em nossos perfis nos sites de relacionamentos que deveriam ser agendas virtuais.
“Seriamos menos frágeis se fossemos feitos de metal, e nossos corações de ferro, e nossas mentes de aço(...) Poderíamos amar uns aos outros. Poderíamos parar de sentir.” (The Pierces)
Seriamos mais suportáveis se fossemos iguais. Seriamos iguais se nossos sistemas operacionais não fossem baseados em diferentes experiências de vida, seriamos manuseáveis mais facilmente se tivéssemos um manual de instruções.
Eu gostaria que nosso pacote viesse com peças extras, e que essas peças existissem em estoque infindo, seria o fim da morte corporal. Seria o fim dos problemas com relação a modelos sociais, fisicamente falando, seriamos padronizados.
Seria o fim, definitivamente, de qualquer problema comportamental. Qualquer pessoa que fugisse a regra, seria desligada por dispositivos a distancia.
Seriamos perfeitos.
Só não seriamos humanos, mas isso não é relevante.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fat

Sinto, depois do último fim de semana, uma necessidade imensa em falar sobre discriminação. Mas sinceramente não vou falar o que todo mundo já falou sobre homofobia, racismo e preconceito contra raça, gênero, idade, religião ou deficiência. Eu vou falar sobre discriminação contra gordos.
Sim, isso é sim um tema que tem um grande significado pessoal, é abordado totalmente com base em experiências e em necessidades minhas. Mas tudo nesse blog é.
Assisti a um festival de dança nesse fim de semana, e não poderia ter ficado mais desconfortável e decepcionada com o meio onde vivo.
Haviam dançarinos de todas as etnias e, todos, sem exceção tinham sua excelência dentro daquilo que faziam,tinham sua particularidade. Sempre existem claro, os que se destacam, por um motivo ou outro, e havia a menina que dançava dança do ventre, e era gorda.
Assisti ao festival dois dias seguidos, e nesses dois dias sentei-me em lugares diferentes, cercada por pessoas diferentes que tiveram a mesma opinião a respeito da menina. Que a situação que ela estava vivendo era ridícula. Como pode uma pessoa gorda dançar dança do ventre? Ninguém reparou, e se reparou, claro que não comentou que, diferente das outras dançarinas que dançavam dança do ventre, ela dançava em outras modalidades, pelo que pude contar, ela deve ter subido no palco umas 3 vezes. Ninguém disse, em momento nenhum, que dentre as dançarinas de dança do ventre, ela era a única que sorria pro publico acolhendo-o naquele espetáculo. Ninguém disse que, diante das dificuldades físicas que o corpo de um gordo apresenta, ela teve que se esforçar mais do que as outras dançarinas pra aprender a fazer todos os movimentos da coreografia.
Ninguém se ressentiu com a carinha de desconcertada que ela fez quando ela percebeu que haviam pessoas rindo dela, e absolutamente ninguém aplaudiu quando ela levantou o queixo, olhou para as pessoas que estavam rindo dela, e sorriu pra essas pessoas, e dançou maravilhosamente bem. Claro, ninguém comentou o quanto ela dançava bem naquele palco.
Dentro do meu local de trabalho, poucas pessoas vão entender o meu sentimento de indignação diante dessa situação. Acredito, na verdade, que somente pessoas que sofreram algum tipo de discriminação vão entender isso. Nós, gordos, (sim, tenho 1,55 de altura, e peso 93 Kg) somos tratados em um nível diferente de discriminação. Ninguém vira pra um afro-descendente e diz pra ele se pintar de branco e deixar de ser discriminado. Ninguém vira pra um homossexual e diz pra ele se casar com alguém do sexo oposto e deixar de ser discriminado. Ninguém vira pra um idoso e diz pra ele tomar uma poção da juventude e deixar de ser discriminado. Mas eu não sou capaz de contar em minhas mãos as pessoas que já me mandaram emagrecer. Não, nem sou capaz de contar os olhares de repulsa que todos os discriminados já receberam. Nunca vou poder descrever a sensação que tenho quando recebo um “body check”. É horrível vivenciar crianças gordas sendo chutadas como se fossem bolas de futebol nas escolas por crianças que aprendem desde cedo que o que te faz parte da sociedade hoje é se demonstrar superior a qualquer um que seja diferente de você. Sinto tristeza por essas crianças também. Nunca vou encontrar uma forma de exteriorizar o quão devastadoras essas atitudes são pra pessoas como eu. Simples atitudes, simples comentários, mas que podem transformar a vida de uma pessoa em algo quase insuportável.
Não peço muito para as pessoas que conheço, nem para as pessoas com quem convivo com relação a meu peso. Respeito. Toda e qualquer relação se baseia em respeito.
Nós gordos, recebemos como forma de apoio somente o que as pessoas nos apontam como qualidades que não temos. Vejo as pessoas gordas que conheço se tornarem excelentes em canto, dança, escrita, estudos, e, aos olhos dos que convivem conosco, somos pessoas sem força de vontade que não são capazes de mudar uma situação. Ninguém leva em consideração, que talvez, só talvez sejamos mais do que isso.
Fica, devo ressaltar, difícil de acreditarmos em nós mesmos, quando as pessoas “modelo” do meio em que vivemos não acreditam.
Agradeço sinceramente, a todas as pessoas que concordam comigo do fundo de seus corações e entendem que essas palavras vão muito alem do significados que elas tem em um dicionário. São sentimentos que estão sendo expressados aqui, e sim, veja só, gordos tem sentimentos. Antes de sermos gordos, somos pessoas.
Preciso salientar aos gordos que conheço que, diante de minha insignificância nessa sociedade preconceituosa que me obriga a andar com fones nos ouvidos pra não ouvir todas as piadas de mal gosto que esses porcos soltam entre risadas incomodas, que acredito no potencial de cada um de vocês, e que essa crença em seu potencial me faz crer em meu próprio potencial. Preço as pessoas que lerem esse post, não me julguem, não faço apologia a obesidade, uma vida saudável faz de você um ser humano saudável, mas existem N razoes pra que um gordo seja um gordo. Conheçam a historia das pessoas antes de julgá-las. Você pode estar destruindo a vida de uma em nome de uma piada de mal gosto contada pra fazer uma amigo rir.
Digo ao idiota do carro de vidros pretos que um dia, em uma praça publica, me humilhou desferindo na minha direção todos os apelidos e insultos que você pode imaginar que afetam a um gordo, você não sabe o bem que me fez naquele dia por me fazer entender que pessoas como você são o que eu vou ensinar aos meus filhos a não se tornarem.
E, pra finalizar, pra linda dançarina gorda de dança do ventre, preciso dizer que você dança pra car@£#*!!!!!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobre nada

Existe muito que ser dito.
Tantas e tantas e tantas coisas das quais eu gostaria de falar. Mas são tantas que nem sei por onde começar, e, de fato são cosias que tem mais importância pra mim do que pra qualquer outra pessoa. Então sinceramente, nem sei se conseguiria expressar de forma a me fazer entender, a fazer com que você entenda precisamente aquilo que quero dizer...
Poderia falar do amor que sinto por um homem, do medo que tenho de minha doença, de como sinto que ainda não superei meus traumas, do peso que não perco, de peso que carrego. Poderia falar do meu trabalho cansativo, das minhas escolhas erradas, das pessoas que precisam de mim, das pessoas que obrigo a precisarem de mim. Poderia falar de opiniões, de religiões, poderia sim falar de muitas e muitas coisas banais...

Até sinto vontade de falar, mas simplesmente nem sei como falar.
Acho que hoje me cabe comentar apenas algo que nos sirva a todos nós como algo que não seja um empecilho, e nem propriamente reflexivo.
Não está um lindo dia?


Escrito em 23/11/2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Essencialmente humana

Estava pensando de onde os sentimentos vem?
O que nos faz sentir? O que é isso que se move dentro de nos mesmos que nos impele a proteger alguém, o que é que nos leva a sentir compaixão, desprezo, amor...
Chequei a cogitar sim, o instinto. Mas depois abandonei a idéia. Pela procriação, o máximo que acontece é o prazer em sexo e a necessidade de satisfazer desejos sexuais...
Nada justifica a necessidade escrota de ter um parceiro pela vida toda. E, quando você conversa com as pessoas que não tem, que “optaram” por não ter esse parceiro, você só vê e ouve frustração vinda dessas pessoas...
Não tenho nenhuma teoria, nenhuma pesquisa ou estudo que eu tenha feito que responda a minha pergunta. Não há ciências que estudam as futilidades da alma, nem mesmo que estudem uma alma em si. Almas existem?
Sinceramente, pensar em toda essa coisa sobre sentimentos e essências, nesse exato momento, é algo que exige mais, bem mais paciência do que estou disposta a sorver de mim.
Nesse exato momento, sinto, (motivo que me levou a escrever isso) a necessidade maçante e incontrolável e absurda de ter a quem ligar( um homem a quem ligar) e chorar toda a frustração que sinto pelo momento que estou vivendo e pelas coisas que estou passando.
E não, não sei dizer se o que mais me frustra é essa necessidade ou o que estou vivendo.
Me sinto fraca e vulnerável demais diante de tantos sentimentos. Me sinto suscetível  demais, frágil demais, dependente demais...
Me sinto... Humana demais...
E sozinha. Me sinto muito sozinha...


Escrito em 27/10/2010

Meu mundo imaginário

Minha fuga tem um prazo de validade.
Existe algum momento entre o inicio da enclausuração no refugio e o retomar da sanidade, em que minha imaginação simplesmente perde o sentido e meus pensamentos e a realidade assomam minha existência.

Imaginar pessoas que não existem, imaginar que pessoas que morreram não estão mortas, imaginar que a personalidade das pessoas que eu conheço é diferente do que ela realmente é.
Imaginar...
Vagar entre meus pensamentos de uma realidade alternativa onde o mundo gira em torno daquele ser perfeito que sempre quis ser e nunca tive força o suficiente pra torná-lo real...
Já ouvi isso de outras pessoas, esse imaginar reconfortante que as fazem se sentir melhor.
Mas esses dias, ah, esses dolorosos dias em que a chuva cai e o calor permanece. Em que minha imaginação não mais se torna entorpecida pelo doce efeito que meu mundo imaginário tem sobre mim, eu pensei.
Pensei mesmo.
E, enfim, cheguei a conclusão de que nunca vou me tornar a pessoa que eu sempre quis ser.
Nunca vou ter aqueles amigos e aqueles amores que sempre imaginei algum dia tomarem-me como o centro das atenções de suas vidas.
Nunca vou receber a aprovação daqueles a quem sempre me subjuguei para receber deles mais do que um mero olhar de desprezo.
Nunca terei irmãos. E o atestado de óbito de meu irmãozinho morto que encontrei ha algum tempo atrás me prova que é preciso mais, muito mais do que a simples vontade e sentimento de solidão pra ressuscitar alguém...
Triste? Sim, muito muito triste. Não faço essas declarações a fim de demonstrar o quão triste sou pelo que minha vida nunca teve ou foi, não faço por piedade, sequer por frustração. É só uma constatação. Uma atitude de assumir pra mim mesma e de revelar pra outros que por muitos, incontáveis anos vivi uma “segunda vida” por assim dizer.
Cheguei a conclusão de que a pessoa que me tornei hoje, com, ou sem meu mundo imaginário, foi o melhor que fui capaz de me tornar diante das reais situações que vivi.
Talvez meu mundo imaginário seja mais do que só uma fuga, talvez seja alguma doença psicossomática que prediz uma futura loucura... Talvez, mas agora isso não me importa.
Estou em luto por, admitindo a minha realidade, perdi coisas, amigos, pessoas e beleza que nunca tive.
E, por mais insano  que isso possa parecer a quem quer que esteja lendo isso, sinto que esse é o primeiro de muitos passos para a minha aceitação e a aceitação de minha vida que venho buscando tanto por tanto tempo. Estou de luto. E viver o luto, o luto completo,  é ter certeza de abraçar, ao fim de todo o sofrimento, a reconfortante aceitação da perda.
E, com isso, vem a força e a motivação pra seguir...

Nunca me vi como uma pessoa de objetivos traçados que vive por algo. E sempre tive medo disso;. Mas agora, nesse meu inoportuno momento de auto-avaliação percebo que a resposta para essa grande interrogação na minha personalidade sempre esteve obvia diante de mim, e eu nunca a percebi... Sempre me perguntei como conseguir viver sem ter um objetivo na vida. E hoje, ao me perguntar  isso, me senti uma pessoa realizada. A resposta é tão simples que parece ate sem sentido. Eu consegui viver sem um objetivo, porque nunca precisei de um objetivo. Não sei o que isso faz de mim, sinceramente. Não se isso me faz melhor ou pior do que a maior parte das pessoas, e sinceramente, sinceramente mesmo, isso não me importa. Sei que isso me faz diferente. E ser diferente sempre foi uma das minhas características mais marcantes. Uma realização, na verdade, posto que nunca quis ser melhor ou pior que ninguém... So diferente...



Aceitar... Entender e aceitar... talvez, so talvez, essa seja a resposta.


Escrito em 01/11/2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Descoberta da Morte

Passeávamos pelas ruas da cidade em uma tarde de domingo depois de termos passado o dia todo na casa de uma tia minha.
Mal conversávamos. Na verdade, a troca de palavras detinha-se em discussões, afinal eu era uma criança, uma criança irritadiça e “incompreendida” como todas as crianças que tem algo a mais e a menos do que as outras.
Foi quando ele apareceu. O filhotinho de vira latas mais lindinho que eu já vi na vida. Não me lembro muito bem, mas acredito que era claro, cor de Carmelo, com manchas brancas na barriga e patas.
Ela se esforçou muito para despistar o cachorrinho. Mas mesmo ela se rendeu a seus encantos e no fim das contas estava ela também se regalando com as graças que o cachorrinho fazia pra nos impressionar. E como era lindo... Nunca vi um cachorrinho tão encantador. Era apaixonante.
Estávamos indo pra casa, passando pelos atalhos estúpidos que ela sempre escolhia e que eram cheios de arbustos e pedrinhas que o cachorrinho usava pra brincar. Eu estava há uma súplica de conseguir ficar com ele pra mim. Seria ótimo ter finalmente alguém pra brincar e que não levasse meus brinquedos embora... Foi quando aconteceu...
Atravessávamos uma avenida bem próxima já de casa, quando o pequenino hesitou para nos seguir. Mas ele parou no meio da avenida. E era um domingo a tarde, a avenida ficava próxima a entrada da cidade, o que justificava o fluxo excessivo de carros... Eu esperei que a avenida ficasse vazia pra chamá-lo, mas ele ainda não vinha. Parecia que agora ele é quem tinha dúvidas se deveria ficar comigo ou não. De repente, como se ele tivesse sido ligado numa tomada, ele disparou na minha direção. Veio correndo com a lingüinha de fora quase gargalhando com a brincadeira e foi quando um carro apareceu do nada e o atropelou.
Por mais rápido que tudo tivesse acontecido, a sena se repetiu várias e várias vezes na minha cabeça em câmera lenta. O carro sequer diminuiu a velocidade e se foi, enquanto eu ouvia o último choro do cachorrinho antes de ele falecer.
Ela me puxou pelo braço me levando embora. Sequer chegou a perceber meu choque. Jamais havia visto um ser morto que significasse tanto pra mim, muito menos havia presenciado uma morte.
Um dos nossos vizinhos nos parou para conversar com ela e ela o contou sobre o ocorrido, ele foi logo correndo para onde o cachorrinho estava e verificar se poderia ser um dos seus cachorrinhos que havia fugido. Não era e ele deu o veredicto. Ele confirmou com palavras minhas suspeitas, e personificou os pensamentos nos quais eu não queria acreditar. Ele estava morto.
Ao chegar em casa ela me mandou para o banho como fazia todos os dias ás tardes. Tantas e tantas perguntas passavam por minha mente. O que realmente tinha acontecido? O aquilo significava? O que aconteceria agora? Por que eu perdi quase instantaneamente aquilo que havia acabado de se tornar meu e que eu já amava tanto? Por que aquilo tinha tanta importância pra mim? E, acima de todas as perguntas, por que eu estava chorando?
Foi a primeira morte de um ser que eu amava a qual eu presenciei e me lembrava até o presente momento. A única explicação que eu recebi sobre o que havia acontecido foi a de que a vida é assim mesmo, os serem vem e vão. Morrer é o destino de tudo aquilo que tem vida, e que a morte é um mistério que não deve ser compreendido, simplesmente aceitado.
Daquilo tudo a única coisa que eu consegui compreender é que em algum momento, qualquer momento eu ia perder tudo aquilo que eu amava, e que eu jamais voltaria a ver. E, infelizmente pra mim, desde aquele momento eu percebi que aquela dor que eu sentia ia se repetir muitas e muitas vezes porque tantos eram os que eu amava. E como eu amava.
Dali tentei ser algo totalmente contrario aquilo que era minha essência. Ser uma pessoa reclusa e distante de todo mundo era aquilo que eu queria, porque não queria amar mais, não queria sentir mais dor... Anos mais tarde descobri que não mandamos nos nossos sentimentos, e que um amigo tinha razão ao dizer que não mudamos nossa essência. E que tentar ser algo que não se é só pode causar mais dor...

O ano mais importante

Mais um ano de vida completado.
Tanto aconteceu, que nem sei se existem palavras suficientes ou leitores pacientes o bastante para que eu diga tudo.
Descobri mais sobre eu mesma, tive numerosas lembranças do meu passado e não sabia que traumas de infância realmente influenciavam de forma tão crucial em nossas vidas. Passei por situações que sempre imaginei que nunca aconteceriam comigo. Descobri que meu maior problema está nos meus próprios olhos e não nos olhos dos outros como eu sempre imaginei que fosse. Descobri, com isso, que preciso muito melhorar minha visão a meu próprio respeito, afinal não adianta todo mundo me mostrar o quão boa eu sou se eu mesma não enxergo isso. Descobri que tenho uma história que poucos conseguiriam passar com os pulsos ilesos como passei. E pretendo continuar assim. Página em branco, sempre pronta pra ter uma nova história escrita.
Como me mantive de pé diante de tudo isso? Fiz-me essa mesma pergunta por várias e várias noites, e foi difícil descobrir. A maior parte da força veio, pra minha própria surpresa, de mim mesma. Mas, céus, como eu teria vivido isso sem meus amigos? Meus velhos amigos e meus novos amigos... Como eu poderia ter prosseguido sem eles me ouvindo chorar, e reclamar, e me ouvindo recitar minhas teorias absurdas sobre meus traumas infantis... O que teria sido de mim sem as portas da casa do Ronan abertas pra eu entrar todas as vezes em que eu precisei fugir do mundo?E meus dias sem o Douglas e a Sussu trabalhando comigo e me fazendo rir enlouquecidamente não teriam passado tão rápido, nem a dor que eu senti teria passado na mesma velocidade...
Que vontade de chorar...rs
Minhas conversas rabugentas com o João Paulo e minhas complexas conversas sobre nada em especial com o Luan... As conversas com o Marco Antônio que sempre fazem com que eu me sinta mais inteligente do que eu realmente sou...
Minha terapia nunca foi tão produtiva e minha troca de experiências com a Gislene fizeram a terapia ser mais do que era antes. Somos as únicas amigas no mundo que tem uma como confidente da outra... Isso é raro...
Sinto meu distanciamento da Mariana, mas isso não a faz menos importante. Nem aos outros novos amigos que foram tão presentes, mesmo que poucas vezes...
Nada posso dizer que demonstre o amor por minha família e a gratidão por eles estarem sempre ali quando mais ninguém estava e dizendo as verdades que eu precisei ouvir quando eu menos quis ouvir e ninguém teve coragem de dizer.
Enfim, cada minuto desse ano que vivi teve um significado maior do que os outros e sinceramente espero ser forte o bastante para continuar fazendo minhas próximas primaveras mais intensas e importantes... E espero me encontrar por esse caminho que finalmente consegui trilhar... O meu próprio caminho.

Eles

Ela sempre sabe quando precisa ou não precisa se preocupar comigo, mas independente disso ela se preocupa o tempo todo. É quase doentio. É coisa de mãe.
Ele me entende com um simples olhar lançado, e consegue passar essa compreensão e uma imensa segurança ao responder ao olhar. Protetor moderado. Meu pai.
Ela é mais do que mãe, mais do que uma pessoa até. Lê meus pensamentos sem precisar conhecer o que se passa por minha mente e ultrapassa todos os meus limites. Desafia-me e me enfurece e me ama como de uma forma que nenhum humano que eu conheço é capaz de fazer.
Ele é enorme, uma fortaleza de paz e ferocidade. Tão mansinho como um gatinho e é tão fácil ganhar um sorriso seu... Qualquer bobagem dita é uma maravilha. Ele vê minha força nos meus defeitos, e meus defeitos pra ele são de uma beleza inigualável. Só ele mataria alguém por mim. E já tive que impedi-lo muitas vezes de fazer isso.
Ela me disse muitas coisas que me sinto culpada por esquecer, mas umas frasezinhas quase inaudíveis são as que me ajudaram nos momentos mais duros.Ela me disse várias e várias vezes que eu sou especial por ser simplesmente quem eu sou. E que é nos tombos que eu levo que aprendo como levantar e me manter de pé na próxima vez que uma pedra dessas aparecer.
Ele me disse uma vez, quando eu o pedi pra cortar uma barra de doce com uma faca no lugar de usar uma colher, que queria que eu fosse a mulher mais linda do mundo. Choro por não ter conseguido atingir o padrão que eu considero padrão de beleza, mas ele me acha linda, linda... E a única vez que o vi chorar foi por mim.
Na minha adolescência eles nunca me entendiam, e na minha infância nenhum deles esteve presente, mas sua ausência e sua incompreensão foram compensadas por tudo aquilo que eles não tiveram na vida deles e que eu tive a honra de ter. Isso pelo esforço deles.
Não sei mais o que posso dizer sobre eles, mas posso garantir que se algum dia alguém me amou, os únicos mostraram isso da forma mais pura e divina com a qual o amor tem que ser demonstrado foram eles.
Sem esse amor, eu nada seria. E se sou tudo o que sou hoje (não que eu seja muito) é por eles. Pelo amor e proteção deles. E juro que os amarei e protegerei da melhor forma que eu for capaz de fazer, que eu sei que nunca será tão boa como a deles.

Ato de constatação

Tolos vocês que me julgam por não crer no Deus de vocês.
Vocês não vêm o quão são felizes por terem em quem acreditar? Por terem em quem confiar? Por terem alguém que perdoa seus pecados sejam eles quais forem? Como são felizes por seguirem leis que lhes dão ate mesmo o sentido da vida de vocês... Que Fe simples e reconfortante...
As pessoas não percebem como é mais difícil você seguir seus próprios ideais, policiar suas atitudes e definir com base na própria historia o que é certo, ou o que é errado. Não vem como é mais doloroso só ter a si mesmo em que acreditar e ter que confiar somente em seu próprio julgamento pra poder guiar sua vida...
É tão simples se desnortear quando você é seu próprio orientador que me sinto profundamente indignada por ser criticada naquilo que creio. E as vezes penso que se as pessoas depositassem mais confiança em si próprias do que em deuses e entidades as coisas não estariam tão perdidas, as pessoas não seriam tão vazias e teriam mais interesse em conhecerem a si próprias e aos outros. Haveria menos limites em termos de interação, então as conversas desagradáveis seriam beeeeem menos freqüentes. Acredito até que, por mais brega que isso pareça, se não houvesse tantos deuses e tanto fanatismo e tanta necessidade de depositar em outrem a responsabilidade pelos seus próprios atos, as pessoas se respeitariam mais...
Sim, sim, pobre herege sonhadora que enxerga a vida com olhos mundanos e por não crer nos mistérios impostos pela Fe (seja ela em qualquer coisa) vivem tão infeliz e perdida... Sim, admito isso, mas pelo menos, vivo minha vida exatamente pelo que ela é, e pelo que eu sou.