Sinto, depois do último fim de semana, uma necessidade imensa em falar sobre discriminação. Mas sinceramente não vou falar o que todo mundo já falou sobre homofobia, racismo e preconceito contra raça, gênero, idade, religião ou deficiência. Eu vou falar sobre discriminação contra gordos.
Sim, isso é sim um tema que tem um grande significado pessoal, é abordado totalmente com base em experiências e em necessidades minhas. Mas tudo nesse blog é.
Assisti a um festival de dança nesse fim de semana, e não poderia ter ficado mais desconfortável e decepcionada com o meio onde vivo.
Haviam dançarinos de todas as etnias e, todos, sem exceção tinham sua excelência dentro daquilo que faziam,tinham sua particularidade. Sempre existem claro, os que se destacam, por um motivo ou outro, e havia a menina que dançava dança do ventre, e era gorda.
Assisti ao festival dois dias seguidos, e nesses dois dias sentei-me em lugares diferentes, cercada por pessoas diferentes que tiveram a mesma opinião a respeito da menina. Que a situação que ela estava vivendo era ridícula. Como pode uma pessoa gorda dançar dança do ventre? Ninguém reparou, e se reparou, claro que não comentou que, diferente das outras dançarinas que dançavam dança do ventre, ela dançava em outras modalidades, pelo que pude contar, ela deve ter subido no palco umas 3 vezes. Ninguém disse, em momento nenhum, que dentre as dançarinas de dança do ventre, ela era a única que sorria pro publico acolhendo-o naquele espetáculo. Ninguém disse que, diante das dificuldades físicas que o corpo de um gordo apresenta, ela teve que se esforçar mais do que as outras dançarinas pra aprender a fazer todos os movimentos da coreografia.
Ninguém se ressentiu com a carinha de desconcertada que ela fez quando ela percebeu que haviam pessoas rindo dela, e absolutamente ninguém aplaudiu quando ela levantou o queixo, olhou para as pessoas que estavam rindo dela, e sorriu pra essas pessoas, e dançou maravilhosamente bem. Claro, ninguém comentou o quanto ela dançava bem naquele palco.
Dentro do meu local de trabalho, poucas pessoas vão entender o meu sentimento de indignação diante dessa situação. Acredito, na verdade, que somente pessoas que sofreram algum tipo de discriminação vão entender isso. Nós, gordos, (sim, tenho 1,55 de altura, e peso 93 Kg) somos tratados em um nível diferente de discriminação. Ninguém vira pra um afro-descendente e diz pra ele se pintar de branco e deixar de ser discriminado. Ninguém vira pra um homossexual e diz pra ele se casar com alguém do sexo oposto e deixar de ser discriminado. Ninguém vira pra um idoso e diz pra ele tomar uma poção da juventude e deixar de ser discriminado. Mas eu não sou capaz de contar em minhas mãos as pessoas que já me mandaram emagrecer. Não, nem sou capaz de contar os olhares de repulsa que todos os discriminados já receberam. Nunca vou poder descrever a sensação que tenho quando recebo um “body check”. É horrível vivenciar crianças gordas sendo chutadas como se fossem bolas de futebol nas escolas por crianças que aprendem desde cedo que o que te faz parte da sociedade hoje é se demonstrar superior a qualquer um que seja diferente de você. Sinto tristeza por essas crianças também. Nunca vou encontrar uma forma de exteriorizar o quão devastadoras essas atitudes são pra pessoas como eu. Simples atitudes, simples comentários, mas que podem transformar a vida de uma pessoa em algo quase insuportável.
Não peço muito para as pessoas que conheço, nem para as pessoas com quem convivo com relação a meu peso. Respeito. Toda e qualquer relação se baseia em respeito.
Nós gordos, recebemos como forma de apoio somente o que as pessoas nos apontam como qualidades que não temos. Vejo as pessoas gordas que conheço se tornarem excelentes em canto, dança, escrita, estudos, e, aos olhos dos que convivem conosco, somos pessoas sem força de vontade que não são capazes de mudar uma situação. Ninguém leva em consideração, que talvez, só talvez sejamos mais do que isso.
Fica, devo ressaltar, difícil de acreditarmos em nós mesmos, quando as pessoas “modelo” do meio em que vivemos não acreditam.
Agradeço sinceramente, a todas as pessoas que concordam comigo do fundo de seus corações e entendem que essas palavras vão muito alem do significados que elas tem em um dicionário. São sentimentos que estão sendo expressados aqui, e sim, veja só, gordos tem sentimentos. Antes de sermos gordos, somos pessoas.
Preciso salientar aos gordos que conheço que, diante de minha insignificância nessa sociedade preconceituosa que me obriga a andar com fones nos ouvidos pra não ouvir todas as piadas de mal gosto que esses porcos soltam entre risadas incomodas, que acredito no potencial de cada um de vocês, e que essa crença em seu potencial me faz crer em meu próprio potencial. Preço as pessoas que lerem esse post, não me julguem, não faço apologia a obesidade, uma vida saudável faz de você um ser humano saudável, mas existem N razoes pra que um gordo seja um gordo. Conheçam a historia das pessoas antes de julgá-las. Você pode estar destruindo a vida de uma em nome de uma piada de mal gosto contada pra fazer uma amigo rir.
Digo ao idiota do carro de vidros pretos que um dia, em uma praça publica, me humilhou desferindo na minha direção todos os apelidos e insultos que você pode imaginar que afetam a um gordo, você não sabe o bem que me fez naquele dia por me fazer entender que pessoas como você são o que eu vou ensinar aos meus filhos a não se tornarem.
E, pra finalizar, pra linda dançarina gorda de dança do ventre, preciso dizer que você dança pra car@£#*!!!!!